"No futuro a vida lhe dará duas escolhas. Uma diz respeito a quem você é, a outra diz respeito a quem você quer ser. Saber escolher a melhor delas, te deixará mais próximo do Enigma que Você É". - Alexyus Cruz

27 de ago de 2014

A trajetória de Alexyus Cruz, os fanzines e os autores.

Uma colaboração de Rafael Martins sobre Memento e outras coisinhas:

        Ao longo de sua série de fanzines (Borboletas Envenenadas, Soprar de Asas Congeladas, Lemúria) e seus adidos paralelos (os humorísticos do Clube das Aberrações primeiro e segundo), Tchelo e Kurts repetiram seu estilo de modo bem consistente e com isso conseguiram atingir boa compreensão de sua própria metodologia de trabalho, o que é uma coisa maravilhosa. Todavia, isso sempre vem acompanhado de uma sensação de que tal modelo já está com seus limites testados, a ponto tal que se tornam visíveis certas concessões feitas em detrimento da própria mecânica tradicional dos quadrinhos e em favor do teatro que, olhadas novamente, conspiram um pouco contra a experiência de leitura dessas obras. Em outras palavras, em muitos aspectos, as histórias são teatro demais e quadrinhos de menos. A tal dramaturgia citada acima poderia ser desenvolvida em conjunto com outros ângulos de câmera e com uma divisão melhor de conteúdo por quadrinhos, a fim de se evitar de sacrificar tão flagrantemente a ilusão de movimento (que é peculiar das histórias em quadrinhos). Afinal, no teatro também há movimento, energia e ação, tanto quanto diálogo e tensão. Não se está, obviamente, sugerindo o implemento de dispositivos de narrativa visual dos mangás ou dos comics, tais como linhas de ação ou onomatopéias, ou mesmo a mudança muito brutal do estilo de câmera, com planos-detalhe. Tudo isso arruinaria a tentativa de se reproduzir a sensação de se estar assistindo uma peça. Busca-se apenas relembrar que uma história contada por imagens estáticas em seqüência que não gerem um efeito de conclusão forte o suficiente para uni-las está mais para um livro ilustrado do que para uma história em quadrinhos (vide Scott McCloud).
                
              Em nossas conversas, eu já alertava Tchelo da necessidade de reinventar seu próprio estilo e elevá-lo a um novo nível, embora eu não soubesse ao certo expressar de que forma isso se daria. Chegando finalmente à parte em que resenho sua mais nova publicação, fico feliz em dizer que ele arrumou um modo por ele mesmo. Memento é, se não estou errado, o quarto episódio das peripécias de Alexyus Cruz e é disparadamente a mais bem elaborada e bem acabada obra fermentada no Porão até agora. E digo isso sem receio de ser julgado um imediatista modista.
                Já se começa percebendo uma grande evolução no quesito da produção. Ultrapassando os meros comentários em cima da qualidade do papel da capa (lustrosa, mas sem ser demais, ideal) e do miolo (aspereza e finura bem escolhidas, impressão competente), podemos dizer que o grande acerto está nas medidas: comprimento e largura concomitantes, deixando o resultado final agradável aos olhos e às mãos. O aspecto de bolso a la “gibizinho” caiu bem e não tornou o conteúdo claustrofóbico e apertado. A arte da capa não é ruim, se serve do fato de fugir bastante das montagens e colagens góticas das edições passadas para se destacar. Para o público, esta deve funcionar melhor, entretanto, posso dizer que não havia nada de errado nas capas de Lemuria e Borboletas Envenenadas, das quais gosto bastante.
           
               Aqui preciso dizer que para mim uma produção empobrecida ou enriquecida nunca definiu ou definirá um fanzine. Como atestei anteriormente, esse sempre foi um foco a qual os aspirantes se perdem demais e que acabam por sugar seu foco e aumentar em muito as chances do comprador se sentir vítima de propaganda enganosa. Os próprios autores começaram com materiais e impressões bem menos nobres e caseiras. Em oposição, não se pode deixar de elogiá-los por começarem a arriscar mais alto a fim de assegurar que cada detalhe de sua obra fosse perfeito, inclusive o técnico, e dar uma cara de banho tomado, cabelo penteado e roupinha alinhada, a sua HQ.
                Na contracapa temos o editorial e os créditos, tudo bem a caráter do que vem se tornando praxe em todas as publicações independentes (em grande parte para passar uma atmosfera de profissionalismo – muitas vezes desnecessária, mas vá lá). Com exceção da capa, tudo permanece no clássico preto e branco, mas as surpresas já começam ao virar da primeira página. Para quem estava acostumado aos traços grossos de Kurts, temos Ellie Petersen abrindo a história não só com um desenho mais fino, artefinalizado com pena, como também um uso bem suficiente das retículas, tais como nos mangás. Mais adiante Wagner retoma a arte, onde há momentos com harmonias emprestadas do mangá e outros emprestado dos comics. O próprio Tchelo se arrisca a desenhar algumas páginas meio sofregamente, enquanto Júlio Cesar, nosso amigo em comum, colaborou na demão de nanquim nos grafites de Kurts. Todo esse esforço pode não ter ficado tão sinfônico quanto se planejou, mas merece reconhecimento, pois é a partir daí que se percebe o quanto esse time está começando a fazer aquilo que seus instintos mandam e deixar de subestimar a capacidade do leitor de aceitar ou acompanhar.
           
         No quesito história, é refrescante ver transcendências e abstrações que beiram Neil Gaiman ou Grant Morrison, dotando a estrutura às vezes prolixamente filosófica das histórias e Alexyus de uma metafísica coerente e interessante. A “dimensão teatral” que até aqui se desvelava nas páginas dos fanzines anteriores sem prestar satisfações, ganha agora uma suposta explicação, ao receber a alma do garoto João, assassinado antes de ter tido a chance de se declarar ao seu amor da vida inteira, tendo ido parar no palco, que além de morada de Cruz e sua trupe, é também o palanque de onde se tem acesso às mentes de todas as pessoas. Além de explicar ao rapaz o curioso funcionamento da existência humana e como ela é vista por cada um, num processo idêntico a uma encenação, Cruz decide demonstrar tudo isso pedindo a seus comparsas que reproduzam a vida de João em cenas, assim possibilitando uma viagem a recortes da vida esquecidos até por ele mesmo. A metalingüística dá saltos alucinantes aqui, onde vemos Alexyus sendo linguagem pura, na forma de grafites em paredes ou fanzines dele mesmo no “mundo real”.  A HQ cria camadas tão diversas dentro dela mesma em conjunto com suas edições passadas, que ao leitor não resta muito se não relaxar e aceitar que Alexyus está mesmo por todo o lugar. Quem sabe até fora da revista.
           
             A quadrinização é elogiosa não por ser bem pensada (na realidade essa permuta de artistas gerou um ritmo irregular de mudanças de página, tanto na disposição dos quadros quanto nos tons, nem sempre com bons resultados), mas sim por que pela primeira vez tenta fazer coexistir o experimentalismo das edições passadas com técnicas bem mais modernas e abertas de narrativa visual. Isso se deu por que houve uma necessidade de se trabalhar a trama no mundo real paralelo dentro da revista, um mundo com ruas, casas e automóveis, cujas dimensões são acessadas de forma diferente do palco de Alexyus e Cia. Não há críticas a ordem cronológica da história, que evitou ao máximo cair no didatismo e não teve medo de trabalhar pequeninos recortes de cena, mesmo com risco de serem reticentes demais. Ainda que não se possa dizer que o que se viu dos personagens de fato deem profundidade a eles, ao menos se tem a certeza de que o que foi escolhido na “edição” era útil e imprescindível a história.
                As mensagens são múltiplas e todas giram em torno da consciência, da vida, suas brevidades e miudezas, mas também preciosidades e espetáculos. Os personagens-atores-fantasmas da companhia de Cruz dialogam o quanto gostaram de encenar momentos resumidos da vida de João, ainda que todos eles não fossem primorosos, quanto não terminavam em morte. Quase deuses do outro mundo, gratos estavam em compor um personagem que, no ponto de vista do próprio João, era desprezível, mas que para eles, acostumados a reconstituir seus épicos, era talvez o mais interessante e desafiador.
           
            Acredito que para finalizar o parecer em cima de Memento, cabe ressaltar que o final da história traz bem à tona o efeito de transformação do teatro tradicional medievalesco que Cruz e seus amigos replicam constantemente no teatro urbano mais atual que João parece ter trazido com ele, funcionando como uma espécie de metáfora. O palco muda, mudam-se as roupas, muda-se a iluminação.  Um processo de transição simbólico incrível que demarca inclusive a mudança dos próprios autores.
                
             Não me resta muito mais agora que não aguardar o próximo número e torcer para que a evolução seja constante e perceptível não só a mim, mas a todos os demais que se interessem nas tantas convenções em que esses mes ami se aventuram a feirar. Que também acrescentem mais elaborações fantásticas e reveladoras à mitologia do dramaturgo sombrio, que deem a ele mais desdobramentos do que somos capazes de imaginar. Que continuem se destacando em meio à indolência e a mesmisse como artistas de alma e técnica verdadeiramente maduros.

                

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